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Opinião

O longo caminho para uma matriz energética menos poluente

Os principais desafios são financeiros e tecnológicos, e o arcabouço regulatório no Brasil e no mundo não estão totalmente preparados para esse novo cenário

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O tema transição energética tem dominado a pauta de discussões dos governantes e empresários sobre meios para que o Brasil atinja a desejada meta de zero emissões líquidas de gases de efeito estufa até o ano de 2050. Trata-se de uma longa jornada de investimentos que devem ser feitos tanto pela iniciativa privada quanto pela pública, mas que traz junto enormes desafios.

Segundo o site Breakthrough Energy, uma coalização de investidores privados fundada por Bill Gates, o processo de geração de eletricidade é responsável por 27% das 51 bilhões de toneladas anuais de gases de efeito estufa que é lançado na atmosfera, majoritariamente, causado pela geração de petróleo, gás natural e carvão mineral (combustíveis fósseis). Nesse mesmo contexto, o documento “Revisão de estatísticas de energia mundial”, da empresa BP, aponta que 63% da eletricidade gerada no mundo advêm de combustíveis fósseis.

Um dos principais motivos pela preponderância desse insumo na geração de eletricidade é o preço do produto, que é extremamente baixo se comparado às demais fontes. Além disso, há os subsídios governamentais. A Agência Internacional de Energia estimou que foram concedidos em 2018, ao redor do mundo, 400 bilhões de dólares de incentivos para o consumo de combustíveis fósseis. No ano passado, esses números foram ainda maiores em função do crescimento demográfico e do efeito causado pela pandemia.

Considerando a relevância que os combustíveis fósseis têm na matriz energética mundial, é relativamente fácil concluir que o planeta não será capaz de eliminá-los do processo de geração de eletricidade num horizonte de tempo que permita atingir a marca de zero emissões líquidas até 2050. Por isso, o mundo tem apostado no surgimento e incremento de energias de fontes renováveis, tais como solar e eólica.

Atualmente, as fontes renováveis correspondem a aproximadamente 7% da eletricidade gerada no mundo. E por que estas não são simplesmente desenvolvidas de modo a terem maior relevância na matriz elétrica? Por serem renováveis, não seria mais fácil de serem obtidas? Vale ressaltar que não pagamos para obter vento (eólica), sol (solar) ou água (hidrelétrica) enquanto as usinas geradoras de energia elétrica movidas a combustível fóssil precisam pagar pelos insumos.

Então, por que essa preponderância? Porque os combustíveis fósseis são extremamente baratos. O mundo está há décadas investindo em maneiras mais eficientes de obtê-los e convertê-los em eletricidade. Além do que nem todas as regiões do planeta são dotadas de fontes renováveis em escala suficiente para a produção de energia e os custos de transmissão para regiões menos favorecidas em termos de renováveis poderiam ser proibitivos.

Os insumos fósseis que vão dar origem à energia elétrica podem ser transportados do ponto de extração até as usinas, o que torna a geração não intermitente. O mesmo não se pode dizer das fontes renováveis de maior relevância atualmente. Esses recursos energéticos que, para fins de conversão em energia elétrica pelo sistema de geração, não podem ser armazenados na forma original. Os reservatórios de água são fixos e competem com aquela utilizada para o consumo, o sol apresenta maior intensidade na linha do Equador e o vento não é possível estocar.

Assim, o maior dificultador para a ampla utilização das energias renováveis talvez seja a intermitência. O sol não brilha durante o dia todo e tampouco com a mesma intensidade no inverno e no verão, o vento não sopra ininterruptamente e a energia hidrelétrica depende diretamente do volume de chuvas, que pode ser menor em um ano ou outro. Porém, o mundo precisa de eletricidade disponível 100% do tempo.

No livro “Como evitar um desastre climático – as soluções que temos e as inovações necessárias”, Bill Gates convencionou chamar de “Prêmio Verde” o custo adicional para utilização de uma energia mais limpa em detrimento de uma mais barata, porém mais poluente. A depender da diferença de custos, os investidores podem simplesmente não estar dispostos a desenvolver as alternativas verdes.

As ponderações acima nos levam a crer que o caminho para uma matriz energética global menos poluente está apenas no início e os principais desafios são financeiros e tecnológicos. Além disso, vale também ressaltar que o arcabouço regulatório no Brasil e no restante do mundo também não está totalmente preparado para esse novo cenário.

Bernardo Lemos é sócio-diretor de energia e recursos naturais da KPMG


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