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Opinião

O custo que poucos falam

O custo do deslocamento energético que as novas fontes renováveis vêm provocando em matrizes como a do Brasil deve ser levado em conta no contexto da transição energética

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No nosso último artigo, de 22 de dezembro, alertamos que para atingir as metas de redução de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), o mundo precisa triplicar a capacidade em energias renováveis até 2030, o que demandará investimentos anuais de US$ 3,5 trilhões, que é mais de quatro vezes o investimento atual (Global Gas Report, Internacional Gas Union – IGU, out/2023).

Mas além da imensa necessidade de capital que será requerida para a promoção da transição energética, temos outros custos que raramente ouvimos falar. Um deles é o deslocamento energético que as novas fontes renováveis vêm provocando em algumas matrizes, como, por exemplo, no Brasil.

Como na maior parte do mundo, que possui uma matriz fóssil, a expansão das fontes renováveis, notadamente eólica e solar, está ocorrendo rapidamente para se cumprir os objetivos de redução dos GEE. Já o Brasil possui uma matriz limpa com mais de 80% de fontes renováveis mas, ainda assim, o crescimento dessas fontes também se intensificou nos últimos anos, como podemos ver no gráfico abaixo.

Figura 1: Capacidade instalada das fontes eólica e solar no Brasil, centralizada + GD (Fonte: Aneel e BEN)

Pela sua matriz privilegiada, o Brasil pode promover a inserção destas fontes renováveis de forma mais coordenada, com maior segurança, e mais eficientemente, pois não tem a mesma urgência da maioria dos países. Porém, uma medida de eficiência importante a ser avaliada é o vertimento turbinável, que representa a quantidade de água vertida (em MW) nas hidrelétricas, mas que poderia passar pelas turbinas produzindo energia.

A Figura 2 apresenta a evolução histórica da energia vertida turbinável de 2000 a 2023 e a estimativa para o período 2024 a 2028 obtida a partir do Plano Mensal de Operação de janeiro de 2024. Com um valor médio histórico de 1,3 GW médio, constata-se um crescimento bastante significativo nos anos mais recentes, chegando a 6,0 GW médios em 2023.

Esse panorama se mantém para a projeção de 2024 a 2028, alcançando 5,7 GW médios. Vejam que essa elevação do vertimento ocorre justamente no período de maior crescimento na incorporação das fontes não controláveis no sistema. No ano de 2023, por exemplo, o vertimento ocorrido representa 8% da demanda de energia no ano. Nesse ano, o País acrescentou 18 GW de nova capacidade de energia eólica + solar.

Figura 2: Evolução da energia vertida turbinável no SIN (Fonte: elaboração própria, ONS)

Esse crescimento não planejado das energias eólica e fotovoltaica, tanto da geração distribuída como da centralizada, tem ocorrido em parte por conta de subsídios que já não seriam mais necessários. E como essas usinas tendem a se localizar onde ocorrem os melhores níveis de radiação solar e vento, a região Nordeste passa a concentrar grande parte dessa geração. Isso faz com que o sistema elétrico se expanda através da ampliação das capacidades de transmissão entre a região Nordeste e Sudeste/Sul. Nessa situação, a operação do sistema passa a apresentar um volume crescente de energia vertida turbinada justamente no período de maior geração eólica e/ou solar.

Para trazermos uma ordem de grandeza dos custos envolvidos por esse vertimento, considerando o valor médio de energia vertida turbinável para os próximos anos de 5,7 GW médios, valorizado pelo custo marginal de expansão de 90 R$/MWh (PDE 2031), tem-se um custo anual de cerca de R$ 4,5 bilhões. Segundo o PDE 2031, o investimento médio anual em geração de novos projetos no horizonte decenal é de R$ 19 bilhões, ou seja, o vertimento turbinável médio nos próximos cinco anos é cerca de 23% do investimento médio em geração.

O Brasil, ao usufruir de uma matriz energética predominantemente limpa, está em uma posição privilegiada para promover uma integração estratégica e estruturada das fontes renováveis não controláveis, minimizando os desafios operacionais que essas fontes trazem e, diminuindo custos adicionais tais como investimentos em sistemas de transmissão ociosos e geração para servir como backup, além do deslocamento da energia hidrelétrica renovável, como atentamos acima.

Levi Souto Jr. é sócio fundador da Arpoador Energia. Possui mais de 20 anos de experiência em desenvolvimento de projetos de geração de energia, leilões de energia, M&A, licenciamento ambiental, negociação de contratos EPC, O&M e FSA.


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