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Nova crise, velhos problemas

O atual panorama energético nos oferece a oportunidade de mudar radicalmente a forma como são utilizados os recursos naturais do planeta

A pandemia global e, em seu rastro, a pior recessão global da história recente, trouxe a oportunidade de refletirmos sobre diversas mudanças em nossas vidas, no ambiente de trabalho e nos negócios. Neste espaço de tempo, o reduzido nível de atividades econômicas, do uso de transporte público ou privado e a suspensão de quase todas as viagens aéreas teve um impacto altamente positivo sobre o meio ambiente e o clima. Houve, de fato, uma redução de emissões em todo o mundo.

Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que a queda esperada na demanda de energia em 2020, de 6%, se deve principalmente à redução na demanda por fontes fósseis (petróleo 9,1%, carvão 7,7%, gás 5%). Em razão do colapso da demanda, os preços destas commodities caíram expressivamente. A questão é que, além do baixo preço do petróleo, a desaceleração econômica poderá desestimular os investimentos em eficiência energética e energia renovável.

Olhando pelo retrovisor da história, os investimentos em fontes alternativas sempre ganharam impulso em momentos de alta no preço do petróleo e das fontes fósseis em geral. As crises econômicas, como a crise do petróleo dos anos 70 e a crise financeira global de 2008, foram responsáveis por declínios temporários nas emissões de gases do efeito estufa (GEE). Não houve, contudo, motivo para comemorações duradouras. As emissões retornaram ao patamar anterior, após o reaquecimento da economia, suprimindo quaisquer benefícios climáticos anteriormente obtidos.

No atual momento, a redução no consumo de energia mundial vai gerar, no curto prazo, uma diminuição nas emissões GEE. Até o início de abril, as emissões globais de CO2 caíram cerca de 17%, na comparação com os níveis médios de 2019.  A expectativa é de uma queda nas emissões mundiais em torno de 8% ou 2,6 GtCO2 (AIE), resultado superior ao registrado em qualquer outro período da história. Infelizmente, no Brasil, espera-se que as emissões aumentem cerca de 10% desde já, devido, principalmente, ao crescente desmatamento.

Podemos mudar. O mundo tenta entender como as economias podem se recuperar de uma crise colossal que, de acordo com a OCDE, aponta para uma queda no PIB global entre 6% e 7%. Uma quantidade exponencial de recursos financeiros está sendo injetada nos sistemas econômicos mundiais para inibir os efeitos mais devastadores na economia.  Os países do G20 anunciaram estímulos fiscais da ordem de 10 trilhões de dólares e a mensagem dos líderes globais é que estão dispostos a continuar nesta linha.

Mas o que precisamente é possível fazer com o extraordinário montante de recursos que está sendo injetado na economia?

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alerta que as emissões globais de GEE precisam cair 7,6% /ano, entre  2020 a 2030, para manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C. Estamos diante de uma oportunidade única para definir políticas, projetar e implementar mudanças globais que possam ajudar  vida no planeta no longo prazo.

Centenas de políticos e lideranças empresariais e ambientais lançaram recentemente a “Aliança Europeia para uma Recuperação Verde” – a primeira iniciativa para o pós- crise, com foco na construção de planos voltados para recuperação econômica e alinhada a princípios ambientais. Desde a sua criação, a citada Aliança obteve a adesão dos principais fabricantes e instituições financeiras da Europa.

Ao mesmo tempo, a opinião pública pressiona por mudanças na priorização dos investimentos. Uma pesquisa recente do IPSOS revelou que dois terços dos entrevistados apoiam a “recuperação verde”, sendo o apoio dos Brics superior ao de outros países do mundo (Índia 81%, China; 80% e Brasil 66%, contra uma média mundial de 65%). Claramente, a opinião pública entende que os investimentos ambientais não têm fronteiras e que a vida no planeta importa mais do que a economia. Para boa parte da população, os caminhos para a recuperação da economia precisam, portanto, ser mais inteligentes e “mais verdes”.

Não será uma batalha fácil. Mas há políticas que podem proporcionar tanto a recuperação econômica quanto as metas climáticas conjuntamente. Para ganhar este jogo é preciso ampliar  investimentos em infraestrutura física limpa, sob a forma de ativos de energia renovável; no armazenamento (incluindo hidrogênio), na modernização da rede de tecnologia CCS; em  sistemas de armazenamento de energia doméstica; em modelos estruturais de descarbonização;  na regeneração de ecossistemas, incluindo restauração de habitats ricos em carbono e  em agricultura amigável ao clima . Os investimentos também devem ser direcionados para a educação e o treinamento profissional – a fim de melhor enfrentar o desemprego imediato da COVID-19 – e em iniciativas de apoio rural, particularmente àquelas associadas à agricultura sustentável.

Também devem ser consideradas as chamadas  políticas de cobenefícios – as quais substituem atividades ricas em carbono, como a eletrificação do transporte público local e o aumento em escala da fabricação de veículos elétricos; expansão das redes de carregamento de veículos elétricos, aceleração do lançamento da iluminação pública LED e desenvolvimento de infraestrutura para  transporte ativo, como pistas para bicicletas. Além de contribuir para a redução das emissões de carbono, estas estratégias têm o potencial de gerar uma demanda por mão de obra especializada.

Finalmente, o que parece ser hoje um grande pesadelo pode representar um novo mundo de oportunidades.  Vale lembrar uma frase atribuída a Winston Churchill e que foi repetida por muitos líderes nos últimos meses:  “Nunca desperdice uma boa crise”.

Paolo Re é  líder no Brasil da consultoria Bip

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