Luz ao final do túnel, em uma placa fotovoltaica

Estamos diante de um desafio estrutural. A água está na base da geração de boa parte da energia e, com isso, a cada seca, as bandeiras vermelhas voltam, assim como a sua pressão sobre o custo Brasil e a inflação

O ano de 2021 não será fácil. Ao final de agosto, dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicavam que o volume dos reservatórios na região Sudeste/Centro-Oeste estava em apenas 22,7% da capacidade. É um montante inferior ao que esses mananciais dispunham no ano do racionamento, em 2001. Em Furnas a situação não está melhor: a represa apresenta sofríveis 18,31% de seu volume, o pior resultado para um mês de agosto registrado nas últimas duas décadas. Esta seca prolongada em importantes regiões do País têm obrigado o ONS a intensificar o uso de termelétricas fósseis, as quais são caras e poluentes. 

Não é à toa, portanto, que os brasileiros convivem desde julho com bandeira vermelha nível dois, pagando R$ 9,49 por 100 kWh. O quadro ganha contornos dramáticos ante o fato de que 62,5% dos cerca de 175 GW de capacidade instalada do País serem gerados a partir da fonte hídrica. Ou seja, estamos diante de um desafio estrutural. A água está na base da geração de boa parte da energia do País. E, com isso, a cada seca que enfrentamos, as bandeiras vermelhas voltam, assim como a sua pressão sobre o “custo Brasil” e a inflação.

A boa notícia está na rápida expansão da geração de outras energias renováveis, em particular a solar fotovoltaica. Dá gosto observar o seu rápido crescimento. A geração de eletricidade baseada na captação de luz solar saltou 61,1% entre 2019 e 2020, informa a última edição do Anuário Estatístico de Energia Elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Conquistamos, enfim, o marco de 10 GW de potência operacional no Brasil. O volume é expressivo. Para se ter uma ideia, Itaipu, de longe a maior usina de geração hidrelétrica no país, possui 14 GW de potência.

A conta dos 10 GW de energia solar fotovoltaica traz outra boa surpresa. Enquanto as usinas solares de grande porte somam 3,5 GW de capacidade instalada, praticamente o dobro disto – ou 6,5 GW – ficam por conta da geração distribuída (GD), adotada por consumidores finais e empresas, aproveitando seus telhados e terrenos para instalar suas placas de captação da energia do astro rei.

Ou seja, a geração distribuída merece, sim, a nossa atenção. Como a produção se dá no local do consumo – ou dentro da mesma área da concessionária local, em caso dos sistemas de cooperativas ou de consórcios -, o seu impacto nas redes de transmissão de energia é mínimo, o que diminui a pressão por investimentos nesse segmento. Também os preços da energia saem bem mais baratos ao consumidor. Pequenas empresas podem ter acesso a um preço até 20% menor que a média cobrada pelas concessionárias, com um preço fixo, previsível, independente da bandeira em vigor.

Já, ao nos debruçamos sobre as usinas solares de grande porte, vemos que elas têm um importante papel na expansão do mercado livre de energia, aquele que permite que empresas a partir de uma demanda de 500 MW possam comprar diretamente a sua energia de geradores.

O cenário atual também apresenta um fenômeno interessante: a criação de fundos de investimento que visam o financiamento de projetos de geração de energia renovável, sejam eles usinas de grande porte, voltadas ao mercado livre, sejam eles usinas de pequeno porte, de geração distribuída. Moral da história? Em meio à pior crise hídrica das últimas duas décadas, há uma pequena, mas promissora luz ao final do túnel. Ela incide sobre uma placa fotovoltaica.

Pedro Camanho é sócio fundador da Apolo Energia e executivo principal de investimentos da Apolo Asset 

Leia também