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Fórum Econômico Mundial: transição de energia no Brasil mais lenta

A COVID-19 expôs as vulnerabilidades do sistema de energia, isto significa que a previsão a curto-prazo da transição está em risco

O cisne negro de 2020

O ano de 2020 estava previsto para ser um ponto de convergência na transição global de energia. A produção e o consumo de energia são responsáveis por dois terços das emissões antropogênicas globais anuais, fazendo com que a transição seja crucial para cumprir a promessa feita no Acordo de Paris.

Esperava-se que os países acumulassem suas contribuições nacionalmente determinadas para atingir os objetivos do Acordo, reforçando seus compromissos de manter os aumentos de temperatura globais bem abaixo de 2 graus, com a ambição de reduzir esse valor para não mais de 1,5 graus. O ano de 2020 chegou com um sentido de momento de colheita, porque o mundo estava entrando na sua década de mostrar resultados.

No entanto, ao longo dos últimos poucos meses, fomos confrontados com uma catástrofe de proporções globais, de baixa probabilidade e alto impacto. A velocidade, escala e intensidade da pandemia da COVID-19 nos pegaram de surpresa e exigiram a realocação de recursos e uma convicção coletiva no que diz respeito à limitação da extensão de danos e à restauração da normalidade da economia e da sociedade o mais rápido possível.

A COVID-19 provou ser um caso de “cisne negro”, ameaçando colocar em risco tudo aquilo que foi conquistado durante o período mais prolongado de expansão econômica da história.

Um sistema de energia vulnerável

A disrupção causada pela COVID-19 expôs as vulnerabilidades do sistema de energia. Isto significa que a previsão a curto-prazo da transição da energia está em risco. A velocidade sem precedentes e a extensão da queda da demanda de energia, bem como as volatilidades de preço e os envolvimentos políticos que as acompanharam, desestabilizaram o sistema de energia global.

As dimensões econômicas da transição significam que a extrema volatilidade dos preços tem implicações fiscais para os países e afeta as vidas de milhões de pessoas que trabalham no setor de energia. Também afeta a competitividade das tecnologias de energia renovável e reduz os incentivos para a eficiência energética. A resiliência, não apenas nos mercados e nas infraestruturas, mas também nos mecanismos de política e cooperação, serão críticos para uma recuperação acelerada na transição da energia.

Há sinais de recuperação, conforme a demanda de energia parece acelerar gradualmente. No entanto, até que a economia retome o terreno perdido, ainda pode demorar. Tendo em vista a perspectiva econômica incerta, a aquisição de automóveis e eletrodomésticos pode ser adiada, o desenvolvimento de infraestruturas poderia ser pausado, e atividades industriais não essenciais poderiam levar mais tempo para serem reiniciadas.

A nova normalidade é cada vez mais turbulenta

Esse declínio no consumo de energia tem efeito imediato sobre o meio ambiente, considerando que os céus estão mais limpos inclusive nas áreas mais poluídas da China e da Índia. Embora isto possa ser um fator positivo, pode mascarar a agenda de sustentabilidade ambiental e não deve ser visto erroneamente como um avanço, e também demonstra o custo que teremos que pagar por uma transição de energia efetiva.

Uma transição de energia efetiva, lado a lado com um ecossistema sustentável e próspero, também é essencial para o crescimento econômico e o desenvolvimento social. Em um paradigma global cada vez mais turbulento, as disrupções são a nova normalidade, e o roteiro da transição de energia precisa incluir resistência contra essasdisrupções. A longo prazo, a resiliência da transição de energia envolve um ambiente propício robusto, que vê o sistema se restabelecendo de disrupções imprevistas ou exógenas. Isto inclui a presença de um forte compromisso político, mercados de capital e acesso a investimentos estáveis, um pipeline constante de inovações, modernização de infraestruturas, treinamento de capital humano para sistemas de energia futuros etc.

O índice de transição de energia (ETI – Energy Transition Index) do Fórum Econômico Mundial serve de referência para os países nesses critérios básicos relacionados à transição de energia, juntamente com o desempenho do seu sistema de energia nos campos de crescimento econômico, sustentabilidade ambiental e acesso e segurança da energia. A análise realizada recentemente para o índice deste ano traz uma forte evidência do progresso gradual da transição de energia.

Brasil, atrás de outros países

Desde 2015, mais de 80% dos países aumentaram sua pontuação de ETI. Como fator de encorajamento, a lacuna entre as economias emergentes e os principais países parece estar diminuindo, mas ainda resta muito a ser feito. Nos últimos seis anos, somente poucos países foram capazes de alcançar um progresso constante em ETI, o que demonstra a complexidade e os desafios da transição de energia. Aumentar os níveis de regulações e compromisso político, o capital e investimentos e o desenvolvimento tecnológico têm sido crítico para liberar esse progresso globalmente.

O Brasil está em 47º lugar no ETI 2020, entre 115 países. A pontuação geral de ETI do Brasil tem permanecido relativamente constante desde 2015. Porém, enquanto países em todo mundo avançam mais depressa, o país caiu na tabela de rankings. O Brasil está entre os líderes em sustentabilidade ambiental do sistema de energia mundial, principalmente devido à grande parcela da sua geração de energia hidrelétrica e ao papel pioneiro que desempenha no uso de biocombustível. No entanto, o progresso para alcançar a criação de um ambiente robusto, propício para a transição de energia, tem sido lento na criação de um ambiente regulatório estável para atrair capital e investimentos, no desenvolvimento de capital humano para o futuro sistema de energia e na construção da infraestrutura necessária para proporcionar a transição de energia.

Quando finalmente conseguirmos deixar para trás a tragédia global da COVID-19, teremos aprendido algumas lições muito importantes. O desafio da transição de energia é semelhante à pandemia quanto a escala, efeitos cascata e sistemas econômicos, ou seja, mais severo para populações vulneráveis, e à necessidade de uma resposta decisiva, em tempo hábil e pactuada. Os stakeholders devem estar cientes de que a luta contra a COVID-19 não nos exime de resolver o quebra-cabeça socioeconômico crítico da transição de energia, do contrário, as perdas resultantes do vírus terão um efeito pernicioso ainda maior sobre a Humanidade.

Roberto Bocca e Harsh Vijay Singh são, respectivamente, Diretor e Chefe de Projeto de Formação do Futuro da Energia e dos Materiais do Fórum Econômico Mundial

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