Fontes renováveis e mobilidade elétrica para uma economia desenvolvida

Questões relativas à mobilidade elétrica há tempos deixaram de ser problema exclusivo da gestão pública e hoje passam a integrar a pauta das discussões de vários segmentos, inclusive o setor elétrico

A necessidade de estratégias globais para um mundo sustentável abrange soluções para o aquecimento global e a mobilidade urbana. Isso não é diferente para o Brasil. Questões relativas à mobilidade há tempos deixaram de ser um problema exclusivo da gestão pública e, hoje, passam a integrar a pauta das discussões de vários segmentos, inclusive o setor elétrico nacional. 

O aumento das emissões de GEE relacionadas aos transportes acompanha a tendência da energia requerida por este setor, dada a forte dependência de combustíveis fósseis, ou seja, cada aumento percentual da demanda energética nos transportes provoca um aumento proporcional das emissões.

Decidir por uma ou outra tecnologia de propulsão com base na eficiência energética pode parecer simples, mas questionamentos quanto a viabilidade técnica e, principalmente, o impacto na matriz energética faz esta escolha mais complexa.

Vários países já declararam o fim dos motores à combustão interna em prol dos motores elétricos. E o Brasil? Podemos dizer que o país está atrasado na adoção da mobilidade elétrica?

No Brasil, de um lado, temos os veículos com motores ciclo Otto, que são altamente dependentes da queima de combustíveis fósseis. Do outro, especialistas debatendo possíveis soluções para melhorar o oxigênio que respiramos e impactar menos a saúde de quem vive em centros urbanos.

Uma possível solução, mesmo que minimamente viável, é o aumento no uso de energias renováveis e a adoção de veículos elétricos, pelo menos é o que diz o 2.º Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários. Para o setor de energia, as claras tendências são acompanhadas do mundo tecnológico, mobilidade elétrica e uma matriz energética limpa, confiável e sustentável. Os investimentos em geração distribuída e energia renovável deverão ser cada vez maiores se quisermos fazer parte do grupo de países desenvolvidos.

Essa não é uma nova conversa para a sociedade, pois órgãos e agências competentes discutem ano a ano as melhorias possíveis deste cenário, como a Agência Internacional de Energia Renovável (Irena).

Seus relatórios apontam o uso de energia renovável como solução econômica, visto que é a fonte mais barata de eletricidade em muitas partes do mundo.  Executivos que assinaram a divulgação feita pela agência acreditam que essa é única forma de cumprir com o acordo de Paris — documento assinado por 195 países, com o intuito de reduzir a emissão de gases do efeito estufa e conter o aquecimento global.

As soluções previstas nos documentos da Irena esperam conseguir efeito prático até metade do século, pois analisam tanto as políticas atuais quanto os investimentos necessários e as tecnologias aliadas. Lembrando que isso deve ser seguido da forma internacional, para que as mudanças sejam verdadeiramente efetivas para o planeta e para a humanidade. Algumas soluções práticas são:

— Reconhecer a necessidade de planos energéticos de governos, com políticas e metas planejadas — tal qual o Acordo de Paris — considerando o cenário atual e os investimentos mundialmente necessários para que ocorra a mudança em âmbito internacional, até o ano de 2050.

— Analisar e otimizar as tecnologias e o avanço de atividades de baixo carbono, como a eficiência energética, eletrificação e a energia renovável. 

— Fortalecer a transformação energética de maneira prática e realista, para isso, é necessária a implementação rápida das tecnologias de baixo carbono, visando conter o aumento das temperaturas globais para no máximo 1,5 °C, neste século. Em especial, cortar as emissões de dióxido de carbono e dos gases dos do efeito estufa.

— Por fim, explorar o custo, benefício e a necessidade de investimento em tecnologias de baixo carbono.

Para transformar o ecossistema energético precisamos dobrar investimentos e replanejar a geração elétrica renovável nos próximos 30 anos, pelo menos. Ou seja, para assegurar o futuro em termos climáticos, se faz necessário a aplicação de 3,2 trilhões de dólares por ano, o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Este valor corresponde a cerca de 500 bilhões de dólares a mais do que o valor previsto com os atuais planos.

A quantia seria necessária para investimento em eficiência energética e eletrificação do sistema de transporte, aumento na capacidade de energia renovável, ascensão de energia solar e eólica — com sistemas flexibilizados e equipamentos digitais e expansão da capacidade de armazenamento. Com isso, até 2050 teríamos mais de 1 bilhão de veículos elétricos no mundo, o que combinado a infraestrutura de carregamento e eletrificação de ferrovias traria impacto positivo de longo prazo no que diz respeito às mudanças climáticas. Vale ressaltar que cada dólar investido pode gerar retorno de até 7 dólares, isso devido a economia em combustíveis e redução de danos à saúde e ao meio ambiente.

Para que essa realidade seja possível, as políticas são divididas em três esferas: implantação, integração e apoio — financeiro, industrial e social. Na busca por energia renovável cada passo é necessário e o compromisso é importante. Embora os indicadores sejam positivos, a análise precisa ser feita de forma a abranger cada país conforme sua condição socioeconômica e perspectivas diárias de um futuro melhor.

A consciência ambiental, o avanço de políticas públicas e os investimentos podem ser realizados de formas individuais, mas o avanço e resultado serão coletivos, por isso, é tão relevante firmar pactos e buscar soluções inteligentes, visando a sustentabilidade e o avanço, mas, principalmente, o futuro sustentável.  

Marisa Zampolli é presidente da MM Soluções Integradas e engenheira elétrica.

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