Bancos tem papel fundamental para descarbonizar a matriz energética

É indispensável que setor financeiro no Brasil, como vem fazendo no resto do mundo, tenha mecanismos de avaliação dos riscos ambientais de suas operações no setor de energia, em especial para aquelas que podem agravar o drama das mudanças climáticas

A realização da Cúpula do Clima, semana passada, liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, revelou as intenções dos países desenvolvidos de investirem grandes recursos econômicos e tecnológicos para transformar suas economias. Isso passa obrigatoriamente por uma grande mudança em suas matrizes energéticas, que ainda estão baseadas em combustíveis fósseis, grandes responsáveis pelo problema das mudanças climáticas.

No caso americano, as intenções já viraram propostas ousadas, incluídas por Biden em um Plano para Infraestrutura e Empregos, que estabelece o compromisso dos Estados Unidos de ter uma matriz elétrica 100% limpa em 2035, além da eletrificação dos transportes e de edificações com alto padrão de eficiência energética.

Quem apostou que a descarbonização da matriz energética dos países desenvolvidos não iria nunca acontecer, como foi o caso de vários segmentos econômicos no Brasil, além do próprio governo, vai pagar um alto preço. Não podemos nos enganar, apesar do governo sempre cantar em prosa e verso o fato de já termos uma matriz elétrica predominantemente limpa, pela geração hidrelétrica, o planejamento energético ainda é guiado pelo passado, pela imagem que se vê no retrovisor do carro e não no para-brisa. 

Prova disso é o Plano Decenal de Energia (PDE) para o período 2021-2030. Nele está posto que o Brasil não irá descarbonizar a matriz energética nesta década, ao contrário, vai aumentar a participação de fontes de energia não renováveis para 52%. Nossa matriz energética é predominantemente suja. De todos os investimentos previstos para o setor de energia, 84% são para o setor de petróleo e gás natural, com um total de 2,2 trilhões de reais. Mesmo olhando apenas para o setor elétrico, o PDE prevê a expansão de 15 GW em novas usinas a gás natural, mostrando que, ao contrário do que quer fazer os Estados Unidos, o Brasil caminha na direção oposta e planeja de modo consciente sujar a sua matriz. 

Só esse fato já desautoriza a promessa feita pelo presidente Jair Bolsonaro, em seu discurso na Cúpula do Clima, de que o Brasil alcançará a neutralidade de emissões de gases de efeito estufa até 2050. Será que o presidente não tem conhecimento do PDE?

O mais grave é que o Brasil, mantida essa rota da insensatez, afugentará investimentos estrangeiros, que estarão alinhados com as novas diretrizes de priorizar aportes de capitais para economias com baixa emissão de gases de efeito estufa.

Por isso, é indispensável que o setor financeiro no Brasil, como vem fazendo no resto do mundo, e independentemente das mudanças de rumos ditadas pelo “governo de plantão”, tenha mecanismos de avaliação dos riscos ambientais de suas operações no setor de energia, em especial para aquelas que podem agravar o drama das mudanças climáticas.

O Instituto Escolhas lançou o estudo “Matriz de Riscos: um caminho para os bancos incorporarem o meio ambiente em seus financiamentos, trazendo um instrumento decisivo, com critérios objetivos, padronizados e transparentes, que serve como um guia para os bancos incluírem o meio ambiente nas análises de risco e para que os riscos ambientais tenham peso nas decisões sobre aceitar ou rejeitar novos financiamentos para o setor elétrico. 

O estudo mostra que as usinas hidrelétricas são as que possuem o maior número de riscos ao meio ambiente (46), seguidas pelas termelétricas a gás natural (34) e, por fim, pelas eólicas (29). Esses riscos não podem ser deixados de lado nas avaliações de financiamentos. 

Com a Matriz de Riscos Ambientais fica claro que os bancos que financiarem novas termelétricas a gás natural, por exemplo, estarão alocando recursos para aumentar as emissões de gases de efeito estufa, se distanciando dos compromissos do setor financeiro com o clima e do fluxo internacional de capitais, que direciona recursos para as energias renováveis. 

Diante do jogo das finanças globais, é fundamental que os bancos no Brasil se protejam dos prejuízos das usinas movidas a combustíveis fósseis, que logo se tornarão investimentos obsoletos, e direcionem seus recursos para as fontes limpas de energia, como faz o restante do mundo, colocando o Brasil no grupo dos países que terão uma matriz energética renovável para mover uma economia de baixo carbono. 

Sérgio Leitão é diretor executivo do Instituto Escolhas;  Larissa Rodrigues é gerente de Projetos e Produtos do Instituto Escolhas

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