A sociedade está preparada para a eletromobilidade no Brasil?

Os passos ainda serão longos, mas a partida foi dada em busca de desenvolvimento. Não há como regressar.

Quando o assunto é carro elétrico, várias dúvidas podem surgir na cabeça do brasileiro: será acessível no país? é de fato uma inovação? como funciona a carga? qual o tempo de duração da bateria? As empresas de energia estão preparadas para isso? Já ouvi uma vez que basta comprar um veículo e conectá-lo à tomada, carregar oito horas seguidas e depois rodar pelas estradas de 100 a 400 km, a depender da autonomia ou capacidade armazenada. Engana-se quem pensa que este processo é tão simples quanto parece. Acredite, há diversas questões importantes que antecedem à nossa partida rumo a completa eletromobilidade.

Vamos recapitular: antes de uma aquisição, é primordial entender as regras securitárias, não só as que conhecemos como o uso do cinto, mas das instalações elétricas, afinal, a energia — comercial e residencial — nem sempre está preparada para receber novas categorias de carga como as exigidas pelos carros elétricos ou do tipo plug-in. Para garantir a proteção total das pessoas e instalações, é recomendável verificar algumas normas que devem ser atendidas como precursoras da ABNT NBR IEC 61851, específica para os sistemas de recarga de veículos elétricos. Entre as principais estão: a ABNT NBR 5410 (Instalações Elétricas de Baixa Tensão) e a NR-10 (Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade). Caso a instalação da sua residência não atenda às regras ou necessite de intervenções, procure um profissional habilitado para este trabalho, preferencialmente um engenheiro eletricista. Lembre-se de consultar a empresa distribuidora que fornece energia ao ramal de ligação conectado à rede externa.

Aqui, ainda, comentamos sobre o veículo unitário, então vale ressaltar que o quadro de distribuição elétrica esteja dimensionado para atender a potência máxima dos eletropostos ou da tomada de recarga. Se necessário, instalar um novo quadro para atender esta demanda. Em condomínios e estabelecimentos de habitação coletiva, é ideal consultar o projeto do empreendimento para adequar o carregador à instalação. Na proximidade do ponto de recarga, em local de fácil acesso, deve ser instalado um dispositivo que permita o desligamento da energia elétrica (o disjuntor), além das proteções contra descargas atmosféricas ou sobretensões e proteção contra choques elétricos.

Mobilidade urbana, coletiva e sustentável

É possível, sim, termos ônibus movidos por eletricidade, assim como caminhões, que também devem ter locais adaptados para as recargas. Será primordial modificar toda a cadeia logística e operacional destes veículos.

 Diversos estudos apontam que a eletromobilidade no Brasil se iniciará pelo uso urbano e no transporte público. Acredite, isso já é realidade e são várias as cidades e estados que utilizam ônibus elétricos ou híbridos como solução para a mobilidade urbana: Campinas, Curitiba e Salvador são algumas das que aprovam a tecnologia para a redução de emissões de gases poluentes e pela eficiência dos motores elétricos que supera em grande escala o desempenho dos motores a combustão.

A Prefeitura de São Paulo também utiliza a tecnologia em transporte coletivo, com alguns ônibus que chegam a ter 250 quilômetros de autonomia, permitindo sua utilização durante todo o dia sem interrupção ou problemas. À noite, a frota retorna para a garagem, onde será recarregada. Nestes casos, os ônibus contam com freios a disco regenerativos, cuja energia cinética permite a alimentação e abastecimento do sistema de baterias. Ciência pura.

A utilização de caminhões elétricos se dará num futuro mais longínquo, mas não tão distante se for considerada a categoria de caminhões leves para entregas nos grandes centros urbanos do Brasil. 

O que os ônibus e caminhões elétricos têm em comum? 

A necessidade do sistema de recarga para as baterias.

Abrangendo o tema amplamente, pensamos que os caminhões e ônibus estarão concentrados nas áreas urbanas, com um número limitado de garagens, estacionamentos, centros de entrega e pátios. Agora, se o carregamento desses veículos não for gerenciado adequadamente, a infraestrutura da rede de distribuição local poderá ser significativamente impactada e exigiria uma expansão do sistema elétrico. Entretanto, esse não é um problema difícil de resolver, pois, já existem soluções técnicas que trazem bons resultados aos questionamentos, como:

  • Carregamento inteligente
  • Armazenamento de energia/ BESS
  • Geração distribuída/fotovoltaica

O que precisamos ter em mente é que a recarga de um caminhão ou ônibus elétrico demanda um eletroposto específico e uma instalação elétrica adequada para suportá-lo. Por isso, é necessária uma análise aprofundada para entender as implicações de seus carregamentos, considerando itens como:

  • Os impactos nas redes de distribuição de energia
  • A necessidade de infraestrutura adicional ou reforço da rede
  • Os custos envolvidos (do sistema de distribuição, da adequação das instalações e da infraestrutura de recarga)

Outro ponto importante para se avaliar é a idade da instalação elétrica nos locais de recarga, pois alguns municípios possuem garagens de ônibus antigas com circuitos de proteção obsoletos.  Nesse caso, a rede deve ser preparada para atender a potência total em função da quantidade e potência dos eletropostos que funcionarão em simultâneo. Esta carga deve ser declarada à concessionária de distribuição para que avalie se o sistema ou o circuito de média tensão comporta esta demanda com a qualidade requerida sem que haja interferências ou perturbações no fornecimento.

De olho no futuro

Pudemos acompanhar que o processo para a perfeição da eletromobilidade no Brasil é longa, mas não impossível. Tanto os carros elétricos quanto os híbridos costumam ser comercializados com um carregador incluso. Isto permite ao veículo ser recarregado com esse cabo conectado em uma tomada de três pinos de capacidade compatível, como as tomadas usadas em equipamentos de ar-condicionado ou as tomadas industriais.

É preciso cuidado e muito planejamento. Em edifícios já habitados, mas construídos sem a oferta de tomadas nas garagens, a adaptação dessa instalação pode exigir um projeto elétrico mais complexo e uma obra mais cara, por envolver o deslocamento do circuito a partir do medidor individual de cada apartamento até a vaga de garagem do morador. O mesmo acontece com os espaços para os ônibus e caminhões que se dividirem entre energia e gasolina.

Um passo à frente, alguns condomínios optam por soluções mais centralizadas, como a instalação de um eletroposto compartilhado, com controle de acesso por um cartão de identificação por radiofrequência, RFiD, que reconhece o CPF do usuário previamente cadastrado ou por aplicativos de celular. O ponto de recarga precisa contar com um sistema que direciona a cobrança da energia consumida para a taxa de condomínio de cada apartamento que efetua a recarga. O planejamento deve incluir o número de moradores no prédio, custeamento do autoposto e carga distribuída sem que haja interferência na rede.

Outro fator importante é a localização do ponto de recarga, verificando as ameaças de a instalação estar sujeita a alguma categoria de dano físico, como em garagens coletivas, estacionamentos ou locais onde veículos possam vir a colidir com o equipamento. Nesta situação deve ser previsto o uso de barreira física ou posicionamento adequado para mitigar o risco sem alterar a distância.

Em todo planejamento para a instalação dos eletropostos, a distribuidora elétrica local é um agente fundamental para a realização do projeto, já que esta fornecerá a energia necessária para a rede interna, portanto, é imprescindível incluí-la no plano de construção desde o início, além da firma responsável por criar e executar a instalação elétrica e as obras necessárias.

Estamos a ver empresas com carros elétricos corporativos, cidadãos passeando com seus veículos movidos à bateria recarregável, a eletromobilidade funcionando de maneira eficiente e, principalmente, econômica e sustentável, reduzindo significativamente os gases prejudiciais ao planeta e aumentando a mobilidade urbana, tornando-a digital e acessível, as redes elétricas com projetos inteligentes de integração entre carros e metrópole de forma ampla e otimizada, e grandes organizações adaptando suas logísticas ao novo funcionamento da cidade. Os passos ainda serão longos, mas a partida foi dada em busca de desenvolvimento. Não há como regressar.

Marisa Zampolli é presidente da MM Soluções Integradas

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