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A pandemia e as perspectivas de evolução do cenário energético global

Os alertas de epidemiologistas nos últimos anos para a ameaça crescente de epidemias de corona vírus, ignorados pelos governantes de plantão, soam parecidos com os sucessivos alertas da comunidade científica mundial para a necessidade urgente de se reduzir a elevação da temperatura do planeta

Mesmo ainda no meio desse tremendo freio de arrumação trazido pela pandemia, já é possível tirar lições relevantes para as perspectivas do setor energético global e brasileiro. Está dramaticamente demonstrado pelas consequências das diferentes reações adotadas pelos países frente à pandemia, a importância de se definir estratégias baseadas em conhecimento científico consistente e a partir daí formular e implementar planos, especialmente na esfera do governo, que considerem efetivamente os cenários possíveis. É claro que isso vale para o setor energético, como afirmava Pierre Massé: o plano deve ser o “anti-hasard”.

Os alertas dos epidemiologistas nos últimos anos para a ameaça crescente de graves epidemias de corona vírus, na esteira da SARS em 2003 e H1N1 em 2009, olimpicamente ignorados pelos governantes de plantão, soam parecidos aos sucessivos alertas da comunidade científica mundial para a necessidade urgente de se reduzir a elevação da temperatura do planeta. As mudanças climáticas de profundas consequências, já suficientemente demonstradas e percebidas, ainda que teimosamente ignoradas por alguns desinformados, têm entre suas causas principais as emissões no uso de combustíveis fósseis e impõem promover uma transição energética na direção da eficiência energética e fontes renováveis e sustentáveis.

Reconhecendo esse quadro, além das politicas públicas implementadas em diversos países, nos últimos anos na esfera privada importantes players como a Shell, BP e Repsol, e fundos de investimento ativos no setor energético global como o BlackRock, têm orientado claramente suas estratégias para a sustentabilidade e ultimamente reforçaram suas ações nesse sentido. A recente e impressionante apresentação de Bernard Looney para seu pessoal ao assumir a presidência da BP, ajuda a convencer os céticos quanto às densas mudanças de cenário que estamos atravessando.

Por conta de conquistas tecnológicas desenvolvidas ao longo de décadas na produção de eletricidade e combustíveis, o Brasil adiantou-se na transição energética e apresenta uma das matrizes energéticas mais sustentáveis do planeta, que cabe reforçar. É fundamental preservar essa posição e nossas vantagens comparativas, por seus amplos benefícios de longo prazo.

No âmbito dos combustíveis veiculares, a importante participação dos biocombustíveis, realidade atualmente buscada por diversos países, precisa ser resguardada da ameaça das volatilidades exógenas ou autoinduzidas no preço internacional do petróleo, afetado pela atual financeirização e os fluxos intangíveis de energia, que conduz a preços distorcidos frente a uma oferta real inelástica, como ocorreu há poucos dias no mercado futuro nos Estados Unidos. A CIDE foi concebida visando amortecer essas situações e deve ser usada com urgência para preservar um mínimo da essencial previsibilidade no setor de combustíveis. No sentido correto, a competente implantação do Renovabio corresponde à adequada apropriação das externalidades dos biocombustíveis e reforça sua competitividade, mas seus efeitos serão constatados apenas a médio prazo.

Uma área em que ainda temos muito por fazer é no fomento à eficiência energética, onde estamos acumulando um preocupante atraso em relação à maioria dos países, que têm logrado crescer quase sem expandir seu consumo de energia, promovendo equipamentos eficientes e adotando práticas corretas no uso da energia. Ainda que tenhamos acumulado um razoável acervo de realizações, especialmente no consumo final de eletricidade, é preciso retomar a ação do Estado nesse campo e voltar a promover a racionalidade energética, proporcionando qualidade de vida e produtividade mediante a redução de perdas e desperdícios de energia. Passada a pandemia, o consumo energético voltará a se expandir, desejavelmente em bases sustentáveis. Nesse sentido, o Plano Decenal de Eficiência Energética, em elaboração, desperta novas esperanças.

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